domingo, 15 de julho de 2012
Ansiedade, ataques de pânico e fobias
Ao conduzir, talvez já tenha experimentado a seguinte situação difícil de esquecer: Numa fila de trânsito, sente uma descarga repentina sobre todo o corpo e o coração a palpitar, após uma distracção momentânea, que o levou a uma travagem brusca para evitar a colisão com o veículo da frente, quase colado ao seu
Trata-se de um bom exemplo de um estado de ansiedade normal, visto como uma emoção humana habitual, adequada à sobrevivência, que surge quando estamos perante situações potencialmente ameaçadoras ou difíceis. Permite colocar-nos de sobreaviso perante perigos e torna-nos mais aptos e rápidos a dar resposta e resolver essas situações.
O estado de ansiedade pode também resultar de um problema que se prolonga no tempo, como dificuldades financeiras, a que se dá o nome de “preocupação”. Com frequência, antecipa uma vivência cujo desfecho se gostaria de conhecer, por exemplo, o resultado de um exame.
No entanto, a ansiedade pode ainda surgir como uma emoção pouco diferenciada ou difusa, relacionada com um medo não identificado e, neste caso, é entendida como patológica, particularmente quando demasiado intensa ou frequente, impedindo-nos de levar a cabo as tarefas normais do dia a dia.
Pode também ser despoletada pelo consumo de certas drogas, tais como LSD, anfetaminas, ecstasy, etc… ou até mesmo a cafeína.
Alguns sintomas da ansiedade são as palpitações cardíacas, tremuras, suores ou tonturas, enquanto a angústia, grau mais acentuado da ansiedade, ligada muitas vezes a uma perda real ou antecipada, pode gerar sintomas gástricos ou intestinais, tais como náuseas, vertigens, nó no estômago, diarreia, etc…
Estes sintomas, que provocam uma certa agitação motora, aliados às consequências psicológicas da ansiedade, tais como, tensão emocional, inquietação, apreensão, podem afectar as capacidades individuais para a condução, pois a ocupação mental com as preocupações do indivíduo contribuem para desconcentrá-lo e distraí-lo da tarefa, elevando a probabilidade de acidentes.
Como uma “bola de neve”, o próprio acto de conduzir pode agravar o estado de ansiedade do indivíduo, o que pode traduzir-se em hipervigilância em relação ao meio e a uma condução excessivamente defensiva que, em aglomerados urbanos, é por vezes causa de acidentes.
Quando a ansiedade é muito forte e sem causa aparente, os sentimentos de medo e fortes sintomas físicos no indivíduo, podem fazer surgir, com uma certa autonomia e frequência, os chamados ataques de pânico, ou seja, crises repentinas de ansiedade, em que diversos medos se sobrepõem e auto-agravam, levando ao descontrolo do indivíduo.
Os ataques de pânico sucedem num curto espaço de tempo, normalmente alguns minutos, embora ao próprio pareça interminável, pois é-lhe impossível controlar a ansiedade, deixando-o fraco e exausto.
Os sintomas são os da ansiedade mas muito intensos, salientando-se a taquicardia, sudorese, tremores, dispneia (falta de ar), náuseas, ondas de calor ou frio, parestesias (formigueiros), etc…, nos casos mais graves, despersonalização (perturbação da identidade), sensação de perda de controlo ou morte. Normalmente, após um pico de ansiedade assustador, os sintomas desaparecem por si mesmos e não causam quaisquer danos físicos.
A ocorrência de ataques de pânico pode gerar um ciclo vicioso causado pelo medo de ter medo que provoque mais ataques, tornando-se desorganizadores do comportamento.
A ansiedade e o pânico podem ainda ser acompanhados de sentimentos de depressão, falta de apetite e ausência de perspectivas de futuro.
As fobias, que também podem gerar o pânico, consistem em emoções de medo irracional específico em relação a certas situações, pessoas ou objectos que, para a maioria, não são considerados perigosos. Normalmente, a pessoa com fobia tem consciência que o seu medo é irracional mas não consegue evitá-lo.
Todos passámos por situações em que sentimos medo, por exemplo, de alturas, de aranhas, de cães, etc... No entanto, normalmente, esses medos não interferem em demasia com as nossas vidas. Só quando existe um medo que se manifesta excessivamente e altera significativamente o nosso dia a dia é que podemos considerar tratar-se de uma verdadeira fobia.
O medo resulta de uma resposta súbita a uma ameaça. Sente-se a nível céfalo-cervical, causando olhos arregalados, palidez, falta de ar, etc…
Ligado à ansiedade, o medo também pode ser útil, uma vez que contribui para nos proteger de situações potencialmente perigosas, avisando e capacitando-nos para resolver rapidamente o problema.
Existem variadíssimos objectos aos quais o indivíduo pode responder com fobias, pelo que também estão classificadas imensas fobias. O indivíduo com fobia tende a evitar o confronto com a situação fóbica para não potenciar a ocorrência de emoções que lhe gerem mau-estar. No entanto, são os próprios actos de fuga que mantêm os medos irracionais. Por exemplo, foge-se de estar perante outras pessoas (fobia social), de espaços abertos (agorafobia), de espaços fechados (claustrofobia), de animais (zoofobia), do mar (talassofobia), etc…
Em geral, as fobias provocam arritmias cardíacas, sudação, tensão ou dores musculares, respiração ofegante, tonturas, sensação de desmaio, indigestão, diarreia, etc… Psicologicamente, provocam sintomas de ansiedade, tais como, preocupação constante, cansaço, incapacidade de concentração, irritação, nervosismo, dificuldades do sono, etc…
Estes sintomas apenas surgem perante as situações particulares que causam fobia no indivíduo e não noutras. Por exemplo, se uma pessoa tiver fobia de gatos, sentir-se-á bem desde que não existam gatos por perto, se a fobia se relacionar com o medo de andar de avião, se viajar de outro modo, não sentirá angústia, se a fobia for social, só se sentirá segura quando não estiver perante muita gente.
Dependendo da predisposição dos indivíduos, as fobias podem desencadear sentimentos depressivos, já que a fuga persistente de situações fóbicas poderá determinar um maior isolamento do indivíduo. Podem ainda causar a dependência de substâncias como o álcool, drogas ou tranquilizantes, que constituem formas que o indivíduo encontra de lidar melhor com as fobias.
Uma fobia muito particular
A amaxofobia caracteriza-se pelo medo de se encontrar ou viajar dentro de qualquer veículo de transporte, o que implica o movimento. Afecta diferentes modos de viajar e inclui o medo de conduzir.
É evidente que a condução automóvel requer muita prudência por parte do condutor, mas quando o receio toma proporções exageradas, pode desencadear emoções negativas que levam a um tal estado de tensão que prejudica a condução, falando-se, nesse caso, deste tipo de fobia, a qual pode limitar consideravelmente o dia-a-dia do indivíduo.
A amaxofobia pode estar relacionada com a agorafobia, que surge quando a pessoa se encontra em locais ou situações difíceis de escapar ou recorrer a auxílio, o que pode incluir viajar de automóvel.
Em princípio, a amaxofobia afecta mais mulheres do que homens para o que também pode contribuir uma maior facilidade das mulheres admitirem o problema e procurarem ajuda.
Há pessoas que sofrem desta fobia ainda antes de se habilitarem à carta de condução e poderão passar por processos de formação demasiado morosos, com muitas reprovações, em especial, na parte prática.
Há diferentes graus da fobia mais ou menos graves, desde a que não impede o indivíduo de conduzir mas causa limitações consideráveis ou falta de capacidades para a condução, até pessoas que não são sequer capazes de se imaginar ao volante. Na sua forma mais grave, o medo pode ser paralisante e provocar angústia.
No caso de amaxofobia que não impede de conduzir, os condutores podem sentir medo apenas em algumas circunstâncias específicas da condução ou do ambiente rodoviário, tais como, condições climatéricas (condução com chuva ou de noite), tipo de via (condução em vias desconhecidas, em auto-estradas ou na cidade), contingências da via (pontes ou túneis), fluidez do trânsito (demasiado intenso), etc…
As sensações que provoca passam por stress, ansiedade, incluindo angústia, antes e durante a condução, dificuldades de dormir, suor das mãos, tremores, dores de estômago, taquicardia, ideias negativas, irracionais, visualização de acidentes, etc..., o que leva a um acumular de sensações negativas, que fazem com que a pessoa conduza sob tensão e medo.
As causas da amaxofobia são variadas, mas podem destacar-se os acidentes rodoviários, vividos pelo próprio ou presenciados que, mesmo não tendo causado danos físicos ao indivíduo, podem desencadeaum trauma susceptível de o limitar na tarefa da condução.
A descoberta das limitações humanas, da responsabilidade mas, ao mesmo tempo, da impossibilidade de controlo de certas situações ao volante, estão na base de sentimentos de insegurança e vulnerabilidade gerados por acidentes.
Também a forma de conduzir dos restantes condutores, ou seja, a inserção no ambiente rodoviário, muitas vezes relacionada com sensação de insegurança, pode provocar tensão que leva a este tipo de fobia.
Podem salientar-se outras causas, tais como:
• Ingestão de álcool em simultâneo com a condução;
• Sensação de falta de aptidão ou capacidades ao volante;
• Sensação de vulnerabilidade física, emocional ou psicológica para levar a cargo a tarefa;
• Baixa auto-estima, por vezes, sob a influência de um familiar dominante que causou ansiedade quanto à tarefa da condução;
• Pouca experiência de condução;
• Peso da responsabilidade de transportar passageiros, particularmente os vulneráveis, tais como crianças, etc...
Tal como na generalidade das fobias, as soluções adoptadas pelos condutores que sofrem de amaxofobia, passam por esquivar-se às circunstâncias que originam os seus medos ou controlar variáveis possíveis de controlo, por exemplo, conduzir apenas de dia ou aos fins-de-semana ou apenas com boas condições atmosféricas, utilizar transportes públicos ou boleias, evitar filas ou trânsito congestionado, conduzir apenas em determinados tipos de vias, etc...
Outras fobias capazes de limitar a condução
Relacionadas ou não com a amaxofobia, podem salientar-se algumas fobias que resultam em medos que podem ter implicações para a condução:
Relacionadas com condições atmosféricas adversas ou do ritmo diurno:
•Nictofobia - medo da escuridão ou da noite;
•Selenofobia - medo da lua;
•Siderofobia - medo de estrelas;
•Aerofobia - medo de ventos, engolir ar ou aspirar substâncias tóxicas;
•Ancraofobia - medo de correntes de ar ;
•Lilapsofobia - medo de furacões;
•Astrofobia - medo de trovões e relâmpagos;
•Criofobia - medo de frio intenso, gelo ou congelamento;
•Hadefobia - medo do Inverno;
•Nebulafobia - medo de neblina;
•Nefofobia - medo de nevoeiros;
•Ombrofobia - medo de chuva;
•Antlofobia - medo exagerado de enchentes ou inundações;
•Quionofobia - medo de neve;
•Fengofobia - medo da luz do dia ou nascer do sol;
•Fotofobia - medo de luz;
•Heliofobia - medo do sol;
•Uranofobia - medo do céu.
Relacionados com capacidades do indivíduo para a condução:
•Acrofobia - medo de lugares altos;
•Agorafobia - medo de lugares abertos, de estar na multidão, em lugares públicos ou de deixar lugares seguros;
•Claustrofobia - medo de espaços confinados ou lugares fechados;
•Cleitrofobia - medo de ficar trancado em lugares fechados;
•Agirofobia - medo de ruas ou cruzamento de ruas;
•Hodofobia - medo de atravessar estradas;
•Estenofobia - medo de lugares ou coisas estreitas;
•Gefirofobia - medo de cruzar pontes;
•Cromatofobia - medo de cores;
•Eritrofobia - medo de luz vermelha ou do vermelho;
•xantofobia – medo da cor amarela ou de objectos de cor amarela;
•Fotoaugliafobia - medo de luzes muito brilhantes;
•Dendrofobia - medo de árvores;
•Escopofobia - medo de estar a ser olhado.
Relacionados com capacidades do indivíduo para a condução: •Amnesifobia - medo de perder a memória;
•Astenofobia - medo de desmaiar ou ter fraqueza;
•Copofobia - medo da fadiga;
•Diplofobia - medo de visão dupla;
•Escotomafobia - medo de cegueira.
Outras relacionadas directamente com a condução:
•Cinesofobia - medo de movimento;
•Tacofobia - medo de velocidade;
•Quifofobia - medo de parar;
•Cronofobia - medo do tempo;
•Distiquifobia - medo de acidentes;
•Ligirofobia - medo de barulhos;
•Motorfobia - medo de automóveis;
•Ocofobia - medo de veículos;
•Simbolofobia - medo de símbolos.
Tratamento da amaxofobia e de outras fobias em geralUm certo nível de amaxofobia existe de forma controlada e consciente em cada um de nós e é até saudável, pois temos de admitir que a condução é uma actividade perigosa. No entanto, se a nossa mente estiver bem organizada e treinada em relação à ansiedade ou à angústia, o medo acaba por ser dominado frente à necessidade ou vontade de conduzirmos.
Quando, pelo contrário, não é possível ao indivíduo, por si só, dominar o medo, limitando a condução, deve recorrer a uma consulta psicológica da especialidade, já que habitualmente a fobia tem cura.
As pessoas que sofrem de amaxofobia, bem como de outras fobias em geral, são muitas vezes incompreendidas e têm bastante dificuldade em explicar os motivos do que sentem. Também costumam ter relutância em procurar ajuda, pois, por vezes, pensam que mais ninguém tem esse medo ou que o seu problema não tem solução.
A fobia em si não constitui uma perturbação psíquica grave, o problema é que, muitas vezes, surge como um sintoma ou manifestação de uma doença e aí os casos clínicos poderão ser mais complicados e exigir o tratamento da doença em vez dos sintomas.
No caso da amaxofobia resultar de agorafobia (fobia de espaços abertos) há que investigar e tratar as possíveis causas desta última fobia.
Se existir um episódio na vida da pessoa que desencadeou a fobia, tal como um acidente de viação, o que é frequente, o tratamento poderá ter efeito rapidamente, pois é conhecida a causa, a qual pode ser trabalhada na mente do sujeito.
A Hipnose Clínica e a psicoterapia (comportamental) passa por ajudar o paciente a conhecer, verbalizar e reconhecer o absurdo do medo, controlando-o, sem entrar em pânico.
A técnica básica da psicoterapia das fobias em geral consiste em expor gradualmente o paciente à situação que lhe causa medo, de modo a enfraquecê-lo e superá-lo.
No caso da amaxofobia, pode iniciar-se o tratamento com sessões nas quais o paciente apenas inicia a marcha do veículo. No passo seguinte, estimula-se a pessoa a conduzir perto da sua casa. As distâncias dos passeios vão sendo progressivamente aumentadas, até que se sinta segura para conduzir normalmente.
Se a fobia desencadeou uma depressão, dependência de substâncias ou de medicamentos, há que recorrer a tratamentos especializados, para além dos relativos à fobia.
O que fazer perante um ataque de pânico na condução?
Como vimos, os ataques de pânico geram-se a partir de uma ansiedade intensa ou mesmo patológica, muitas vezes, em resultado de fobias.
Existem alguns meios de evitar a ocorrência de ataques de pânico, já que no meio de um é mais difícil controlá-lo, tais como:
• Aprender uma técnica de descontracção corporal e mental;
• Estar consciente que, mesmo perante crises de ansiedade ou pânicos, nada de mal acontece ou se modifica;
• Aprender a distrair-se perante pensamentos causadores de ansiedade, deslocando-os para diferentes ideias, tais como, concentrarmo-nos nos pormenores que nos rodeiam, no caso de ocorrer durante a condução, por exemplo, contar os automóveis de determinada cor ou marca que circulem em sentido contrário;
• Se for possível, parar o veículo para organizar as ideias.
Se não conseguirmos evitar o aparecimento de um ataque de pânico, o próprio fenómeno leva habitualmente a que a pessoa tenha que sair imediatamente da situação e contexto em que se encontra, no entanto, deve tentar enfrentar a crise e resistir à fuga e ainda:
• Aprender a esperar, já que um ataque de pânico passa muito rapidamente, dissipando-se o medo que ele provoca;
• Concentrar-se na respiração, inspirando e expirando devagar e profundamente, o que contribui para melhorar os sentimentos de ansiedade;
• Terminada a crise, continuar a actividade que se estava a realizar, inclusive a condução.
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